Arquivado em: descontrol
hoje eu peguei ponte orca pra vir pro trabalho e na fila, logo atrás de mim, tinha um casal. ela foi fazer carinho no rosto dele. ele desviou e tirou a mão dela com força. não consegui ver o motivo.
entrei e sentei na janela pra que meu cabelo secasse mais rápido. também é mais fácil pra mim sentar na janela e encostar lendo um livro, sem precisar olhar pra ninguém ao meu redor. o menino do casal sentou no banco ao meu lado, e a menina ao lado dele. ele virou pra frente, com as duas mãos entre as pernas, sem olhá-la nos olhos enquanto ela discorria sobre o quanto a mãe dela acha bichinhos de pelúcia um presente de grego (!). de repente, ele falou “não sei onde você está querendo chegar com isso!” em alto e bom som. até eu estremeci, pensando que se fosse meu namorado meus olhos se encheriam de lágimas. então me deu um aperto no peito ao lembrar que eu já passei por isso tantas e tantas vezes.
quando descemos da ponte orca, enquanto atravessávamos a ponte cidade universitária pra entrar no trem, aconteceu uma coisa que foi o que me fez começar a escrever esse texto, afinal. a menina ia mais ou menos a um passo e meio à frente do namorado. ele não encostava nela ou segurava sua mão. ela tagarelava olhando pra frente, provavelmente sem nem saber se ele estava ali ainda ou não. uma menina de preto, que aliás era bem parecida com a namorada, ia bem perto dos dois, a meio passo de distância do menino, formando uma linha diagonal. uma cena perfeitamente normal que me chamou a atenção somente quando eu percebi que a menina de preto – que até então parecia nem conhecer os dois – fazia carinho no menino que estava com a namorada. passava os dedos levemente por seus pulsos, apertava sua mão, e depois corria os dedos pelas suas costas. e a namorada lá, tagarelando, a meio metro de distância.
isso tudo durou alguns segundos até o momento em que viramos à esquerda para entrar na estação. os três sentaram em bancos da plataforma, lado a lado, como se fossem totalmente estranhos. a namorada não parecia desconfiar de nada, mas algo no modo como ela não olhava pra ele me fazia pensar se ela sabia de tudo.
pensei em quantas vezes eu estive em cada um daqueles papéis. pensei quando eu era a namorada que olhava pra frente porque amava demais pra abrir mão de quem eu tanto queria. por onde ele andava não me machucava, contanto que voltasse para o meu colchão. não parece ser do meu feitio ser tão conformada e submissa… mas foi.
pensei nas vezes que eu estive dividida, deixando transparecer a dúvida e magoando alguém. em quantas vezes eu estava no meio para no final acabar sozinha.
pensei nas vezes que eu fui a outra. que eu quis muito quem não era meu. me apaixonei intensamente por algo que nunca teria… e se tivesse, não seria tão bom. não sei. essas histórias nunca tem finais felizes.
por fim, pensei nas pessoas que amei na vida, nas vezes que me apaixonei… pensei com carinho no max e no fernando. nos momentos felizes, que são tudo que eu quero guardar. quando o amor supera a paixão e a dor se vai é mais fácil lembrar de todos os sorrisos. lembro do max tocando violão e cantando uma música que eu amava do jimmy eat world. da sua família me acolhendo num ano-novo que eu estava sozinha. de voltar pra casa cansada depois dos shows da banda dele e me jogar na cama com meu lençol favorito. lembrei do fernando tirando fotos de mim até quando eu estava furiosa com ele. e me lembrei depois de um dia, sentada em seu colo na casa nova, que ele me mostrou fotos minhas… e eu me toquei que ele documentou todo o nosso namoro recém-terminado.
lembrei que o amor é incompreensível em todas suas formas. e lembrei que eu amei.
eu sou quem sou porque me permiti amar.
isso não é crime.
Arquivado em: diarinho
passei a vida inteira falando que quando tiver minha família vou querer comemorar essas datas: natal, dia das mães, dia dos pais, etc. aqui em casa a gente não comemora nada. minha mãe não gosta muito (ela acha que dá trabalho, acho) , e minha família (tanto de parte de mãe quanto de parte de pai) inteira mora longe… aí eu vejo todos os meus amigos indo comemorar com suas avós e mães e tias e me sinto um pouco sozinha. às vezes dá até um tantinho de raiva – porque não podemos ser uma família normal pelo menos nisso? mas foi assim que fui criada, não dá pra mudar. ese ano até comprei um livro pra minha mãe, mas o submarino está me dando um leve calote. fail.
minha vó, mãe da minha mãe, era uma crocheteira nata. ela era engraçada e eu a amava demais. morreu quando eu tinha 14 anos, num ataque cardíaco fulminante. nós fazíamos aniversário no mesmo dia. hoje, aprendendo a tricotar, eu sinto falta dela – aposto que ela saberia fazer coisas lindas e me ensinaria a fazer a maldita flor de crochê que eu queria tanto saber fazer. falando dela nesse exato momento um arrepio tomou conta do meu corpo todo, como se ela estivesse aqui me abraçando… dá vontade de chorar. ela morava no Rio e vinha me visitar mais ou menos uma vez por ano (mas morreu pouco menos um mês antes de chegar naquele ano). esse tipo de saudade que não passa nunca é quase sufocante. eu sei que tenho várias coisas parecidas com ela, inclusive muitos defeitos… e me assusta curar esses defeitos e perder um pouquinho da dona Lélia que tem em mim. lembro também que ela tinha uma linda letra de professora, e eu amava como ela escrevia o L, letra inicial do seu nome, nas cartinhas que me mandava. lembro de ela fazendo crochê com uma linha salmão, sentada no sofá da minha sala em atibaia. e do leãozinho de pelúcia que ela me deu de presente uma vez. nesse dia, lembro que ela disse que tinha fé em mim – quando outros netos faziam besteira. tinha fé que eu ia estudar, fazer faculdade e ser “grande na vida”, e isso soou como algo que ela não falaria… mas ela falou ali, só pra mim, e só eu ouvi. e lembro dela o tempo inteiro quando não consigo terminar essa matéria da faculdade, me auto-boicotando e repetindo over and over. ela tinha fé em mim. não quero decepcioná-la.
feliz dia das mães, mãe… apesar de você não ligar pra isso.
feliz dia das mães, vó… aonde quer que a senhora esteja.








